Domingo, 3 de Junho de 2012

A trapeira do Job


De: José António Barreiros, advogado, sem comentários:
Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente.
Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam, ainda, da época da infância, da primeira caneta de tinta-permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro.
Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante, se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos, e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias-solas com protectores. Tempos em que ao mudar-se de sala se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho de ver a Deus e à sua Joana".
E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.
Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.
Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como filhos uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e um gadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado, e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status,como a língua nos cães para a sua raça.
Foram anos em que o Campo se tornou num imenso ressort de Turismo de Habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que um dia os Serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro.
O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e às vezes nem obrigado.
O país que produzia o que se podia transaccionar, esse, ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios, e que os víamos chegar mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas-relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio.
Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente. Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação substituía os cavalos-força da maquinaria pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia os computadores tudo fariam, o Ser-Humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado que, caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho e mais uma trinitária pomba.
Às tantas, os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa, porque estávamos a importar brasileiros, que não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.
A chegada das lojas-dos-trezentos já era alarme de que se estava a viver de pexisbeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia quinze os táxis não tinham mãos a medir.
Fora disto, os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundário absentista pelo novo turista absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais, claro, e sempre pela reforma agrária, e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo, e já leu o New Yorker?
A agiotagem financeira, essa, ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia, mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a Conta-Ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum Banco quer que lhe devolvam o capital mutuado, quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende.
Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois que somos nós todos, os Bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting, ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto-autorizado.
Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele Balcão bancário buscar dinheiro, vendermo-nos ao dinheiro, enforcarmo-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.
Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o poder, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental e, nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas, que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. E, contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós.
Estamos nisto.
Este fim-de-semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa.
Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura, em Bizâncio, discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Os buracos


Dizia, recentemente, na Rádio Voz de Basto, que Cabeceiras bem poderia ser considerada a capital europeia dos buracos.
E não me referia ao estado das contas municipais. Referia-me ao estado em que estão as estradas do nosso concelho.
Ao longo dos últimos anos, temos ouvido dizer que se asfaltaram dezenas de quilómetros de estradas, que se levaram os acessos aos lugares isolados, que se criou uma rede de ligação entre as localidades.
Tudo isso é verdade.
Todos os lugares do nosso concelho há dezenas de anos que têm acessos, mas reconhecemos, sem tibiezas, que foi feito um trabalho positivo de renovação das estradas que lhe dão acesso. Porém, não podemos ignorar que, na maior parte dos casos, as obras ou não foram acabadas (falta de valetas, falta de sinalização, falta de marcações, falta de proteções) ou a sua pavimentação foi deficiente, pelo que, volvidos meia dúzia de anos, essas vias estão um verdadeiro campo minado.
Buraco à direita, buraco à esquerda, buraco pelo eixo da via.
Não precisamos de sair da vila para o verificar. Mas percorramos o concelho, de lés a lés, e a situação é idêntica. Podemos sair da vila para os lados de Pedraça, ou para Outeiro. Podemos fazer o percurso de Moimenta a Gondiães. Pelo Vilar à Uz, é a mesma coisa. E, por aí fora, muitos outros exemplos poderíamos anotar.
Mas a ânsia de fazer é tal, que se fazem novas vias, novas rotundas, mas tudo fica inacabado. Aumentam-se os buracos. Vejamos o caso das variantes à vila, a rotunda da Cachada, a rotunda de Lamas. Obras que já levam alguns meses de asfixiante paralisia, criando as maiores preocupações aos condutores, pelos perigos que correm e pelos prejuízos que as suas viaturas podem sofrer.
É imperioso um plano realista e adequado para acabar com este estado de coisas.
A segurança rodoviária é um direito de todos nós.
           
O que faz falta…
           
            Diz a canção que “o que faz falta é animar a malta”.
Ora nesta ocasião de más notícias, animar a malta será sempre positivo. Mas também diz o povo que com “festas e bolos se enganam os tolos”.
E nós temos sido “tolos”, já que nos deixamos enganar com muitas festas e talvez com alguns bolos…
Mas num contexto de crise, numa situação em que o sector público está em colapso, exigia-se uma sociedade civil forte e atuante.
Porém, nada disso acontece, até porque tudo tem de estar coordenado politicamente, não vá haver alguma revolução.
Durante estes anos todos só se pensou em fazer obra pública. Obra que consumiu milhões de euros que não tínhamos. Muitos milhões de euros que estamos a dever e que os nossos filhos irão pagar, e pagar com juros elevados. Obra que nos custará os olhos da cara, no futuro, com a sua manutenção e fruição.
Faz-me impressão que não se tenha pensado em desenvolver o concelho pelo lado do investimento, pela criatividade, pela valorização das nossas potencialidades.
Falar hoje, dezoito anos volvidos, em industrialização, em produtos locais, em criação de emprego, é de um desplante sem limite.
Para fazer isso não teria sido preferível incentivar à radicação de empresas em vez de deixar sair as que aqui havia?
Porque é que não se deixa instalar um hipermercado?
Porque é que os hotéis prometidos se ficam pela promessa?
Só porque esses investimentos têm de ser privados e só se sabe gastar o dinheiro que é de todos nós?
Como dizia num destes dias, nós não gostamos que se ganhe dinheiro. Preferimos que todos nós percamos dinheiro e que caminhemos neste percurso de empobrecimento coletivo.
Depois queixamo-nos!

Crónica para a edição de Maio de "O Basto"

Domingo, 20 de Maio de 2012

Jovens de Cavez de parabéns!

Acabei de ler esta notícia no blogue do meu amigo Telmo.
Não posso deixar de partilhar, com a felicitação aos jovens e aos seus professores de Cavez.

http://partilhadosaber.blogspot.pt/2012/05/alunos-de-cavez-ganham-viagem-paris.html

Terça-feira, 8 de Maio de 2012

Uma história de vida

No passado dia 28 de Abril, concedi uma entrevista a Fernanda Pacheco, da Rádio Voz de Basto, sobre a história da minha vida.
Fica aqui o registo.

Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

Passado, presente e futuro


Há precisamente um ano, estávamos a viver momentos de grave crise económica e política.
O Governo de José Sócrates tinha acabado de pedir o apoio internacional e assumir que Portugal não tinha condições para honrar os seus compromissos.
Só com a ajuda internacional, Portugal poderia assegurar o normal funcionamento dos serviços públicos, desde a administração, passando pela saúde, pela educação, pela segurança, pelos apoios sociais. Era o ruir do “estado social” tão apregoado.
Depois de seis anos de fausto e de descalabro orçamental, Portugal tinha chegado ao limiar da bancarrota.
Guterres, anos antes, tinha-nos legado o “pântano” político. Sócrates preferiu deixar-nos uma colossal dívida e o futuro na mão de estrangeiros.
Agora, volvido apenas um ano sobre a celebração do acordo com a troika, acordo que foi solicitado, foi negociado e foi assinado pelo PS, com o compromisso dos partidos da oposição do arco do poder, eis que é aquele partido e os seus dirigentes que diariamente o põe em causa, faltando com a solidariedade a quem foi responsável e com ele partilhou o ónus de uma situação crítica e para a qual não contribuiu.
Pelos vistos, para o PS e para os seus dirigentes, antigos e atuais, Portugal deve deixar de cumprir os seus compromissos, só porque as medidas são impopulares.
Estes que foram responsáveis por chegarmos ao precipício, querem agora empurrar-nos definitivamente para ele.
As medidas que o Governo está a aplicar mais não são do que aquelas que o PS propôs, negociou e aceitou, conforme decorre das avaliações da troika.
Mal de nós se quiséssemos colocar em causa o acordo firmado.
Às enormes e graves dificuldades existentes somar-se-iam muitas outras, levando a grande maioria a um estado de penúria sem precedentes. Até parece que não conhecemos o exemplo grego.
Ao celebrar “Abril” da liberdade, da democracia, da paz, do desenvolvimento, é imperioso assumir que fizemos um percurso errado, que cometemos erros, e que agora, temos de superar as dificuldades com sacrifícios, com empenhamento, com trabalho, com esperança.
Foi assim no passado de séculos de História, é assim nestes tempos de insegurança e de precaridade, mas só assim estaremos em condições de legar um futuro mais promissor aos nossos vindouros.

           
Câmara gastou mais
           
O ano de 2011 foi um ano que devia ter exigido de todos nós (pessoas, famílias, empresas, entidades públicas) grande contenção orçamental.
Porém, a nossa Câmara Municipal resolveu fazer o contrário.
Gastou mais em despesa corrente do que em 2010.
Gastou mais do que o que recebeu em 2011.
Nestas circunstâncias, o nosso concelho continua um percurso de endividamento que culminará, como todos os outros, em grandes e penosos sacrifícios para os munícipes.
Aliás já o vêm sentindo com o agravamento das taxas, nomeadamente da recolha do lixo, e com a diminuição dos serviços prestados.
E não vale a pena querer “esconder o Sol com a peneira”, como diz o adágio popular…

NOTA: Faz um ano, também, que assumi responsabilidades políticas no concelho. Foi um ano cheio de atividades e de muito trabalho político para preparar as próximas eleições autárquicas, em torno de um projeto de desenvolvimento integrado e sustentado, para o futuro, para a nossa terra e para os cabeceirenses.


Texto para a edição de Abril de "O Basto"

Terça-feira, 17 de Abril de 2012

Arranja-me um emprego...


No seio da maioria das famílias portuguesas e na generalidade das instituições escolares os jovens são educados para desenvolverem uma cultura de procura de um emprego. Raramente os filhos e os alunos são incentivados à criação do seu próprio trabalho. Esta aparentemente pequena distinção de cultura organizacional e de posicionamento perante a vida revela-nos, todavia, a grande diferença entre os que se situam num modelo social dos primórdios do século XX e os que se integram na economia de mercado globalizante da sociedade da informação e do conhecimento que caracteriza o século XXI.
Em Portugal, se as escolas e os educadores não cultivarem uma cultura de empreendedorismo, estarão a contribuir significativamente para que os nossos jovens engrossem as fileiras dos inaptos e dos que nem podem ser considerados desempregados, dado que nunca chegaram a ter qualquer actividade produtiva. Revela-se, pois, necessário perceber a grande mudança introduzida na economia pelo avanço das novas tecnologias, pelo desenvolvimento dos mercados virtuais e pela permanente deslocalização das empresas: os jovens terão que ser preparados para identificarem as oportunidades que se lhes deparem, transformando-as em actividades económicas sustentáveis. No entanto, e com poucas e recentes excepções, o estudo das oportunidades não faz parte dos currículos escolares. E essa lacuna não é só da escola. Também os currículos de aprendizagem na família, na rua e nos grupos de pares (os currículos informais e ocultos) raramente abordam este tema. Por isso, nunca é demais sublinhar que preparar os jovens para o emprego, hoje, é deseducar. É não desenvolver neles o protagonismo, a iniciativa, inibindo a sua capacidade de inserção autónoma na sociedade.
Salientemos que nada disto tem a ver com a defesa de uma sociedade ultra liberal, individualista e concorrencial que, infelizmente emerge das políticas dos nossos governantes e que traduzem uma vontade incompreensível de destruição do Estado social que serviu de base a todas as democracias ocidentais. Reclamar é uma compreensão de que o mundo é feito de mudança e que a produção de bens e serviços e a inserção profissional dos agentes económicos já nada tem a var com os modelos industriais do pós-guerra.
É então importante a introdução nos planos de estudos das nossas escolas conteúdos e actividades que capacitem os estudantes a desenvolver competências que os conduzam à livre iniciativa, com conhecimento dos meios e dos recursos que a sociedade lhes disponibiliza em apoio aos jovens que quiserem ser empreendedores.
No contexto das exigências da sociedade do conhecimento e da tendência para a globalização dos mercados, essa formação profissionalizante dos estudantes e a construção de uma cultura centrada no empreendedorismo revela-se fundamental para as instituições de ensino que, também elas, queiram ser competitivas nas apertadas teias dos sistemas educativos europeus.
Se a globalização está associada a uma aceleração do tempo e a uma progressiva integração do espaço, então importa que estejamos abertos às exigências dos processos irreversíveis que contaminam os agentes económicos. Aprender a viver com isso é preocupação que deve nortear as decisões estratégicas, das instituições de ensino, já que a questão que se lhes coloca é a de saberem identificar e aproveitar as oportunidades que emergem de uma economia internacional sem fronteiras.
A contemporaneidade exige que os futuros profissionais possuam e demonstrem competências em diversas áreas do saber e do saber fazer, muitas delas pouco tradicionais e geralmente expurgadas dos templos de ciência estática em que se transformaram as nossas escolas. Mudemos então essas escolas para que possam voltar a desempenhar um papel fundamental em todo o processo de formação destes cidadãos que se querem aptos a viverem na sociedade da informação, sabendo assumir-se como líderes audazes das próprias carreiras.
Sabemos que estes novos desafios obrigam a mudanças radicais nas rotinas organizacionais das instituições. Mas sem mudança não há futuro que valha a pena ser vivido.


João Ruivo

Segunda-feira, 16 de Abril de 2012

Muito a propósito

Hoje somos chateados por tantas chamadas indesejadas, que deveríamos usar esta técnica....
A ver e seguir o exemplo!

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