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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A TRAMPA VAI GANHAR

TERÇA-FEIRA, 7 DE SETEMBRO DE 2010
A TRAMPA VAI GANHAR

Numa só folha do DN de ontem (2 páginas), podemos ler, embold, os títulos que seguem:

- Custo dos empréstimos está a sufocar as PME

- Área agrícola perde 390 mil hectares

- Aumentos propostos são incomportáveis

- Mal parado das empresas em crescimento

- Crise agravou a economia paralela

- Valor (da economia paralela) é já o dobro do défice orçamental

E, em letra pequena:

- Alemanha insiste em cortar a despesa

- Mundo recupera mas lentamente

Ou seja:

Em Portugal, as desgraças são em catadupas. Se mais jornais citássemos, mais haveria a citar. Respondendo-lhes, em seis meses o governo aumenta a despesa anual em 5%.

Na Alemanha, apesar do crescimento económico ser o maior da zona euro, o governo “insiste em cortar a despesa”.

No mundo, a recuperação é fraca, mas acontece.

Em Portugal, num comício organizado à moda do Estado Novo, com “autocarros para o povo”, etc., o chefe do governo faz um discurso tresloucado (parecia o Vasco Gonçalves, só lhe faltou atirar cravos às massas) a anunciar as mais rebuscadas balelas, como se tivesse dinheiro para as pagar, as promessas mais idiotas, como se fizesse tenções de as cumprir, os mais tremendas piruetas, a dizer que é óptimo hoje o que condenava há seis meses, num indescritível espernear esquerdóide e balofo.

Na Alemanha, o Ministro das Finanças a firma que “temos uma montanha de dívida e seria irresponsável agravá-la”. Atente-se que a dívida pública alemã é, sobretudo, interna.

Em Portugal, onde a poupança interna foi destruída pelo governo, a dívida é externa. É uma cordilheira, não uma montanha. Respondendo, o governo endivida o país em milhões todos os dias, e, num súbito e oportunista ataque de esquerdofilia, resolve fazer as mais idiotas promessas “sociais”.

No nosso mundo, o ridículo de um país que não é capaz de se livrar da ditadura da incompetência e da demagogia, é motivo de patéticas gargalhadas.

De que está o PR à espera para acabar com isto (faltam 2 dias!) é coisa que não cabe na cabeça de ninguém. Porque anda o senhor Passos Coelho a dizer que talvez deixe passar o orçamento, é coisa a que, sem exagero, se pode chamar irresponsabilidade.

De uma coisa parece que podemos estar tristemente certos: a trampa vai ganhar.

7.9.10

António Borges de Carvalho


quinta-feira, 22 de abril de 2010

INÊS DE MEDEIROS II


Excelentíssima Senhora Deputada Dona Inês de Medeiros,

Chère Madame

O IRRITADO teve, aqui há umas semanas, o topete de escrever uma carta a Vossa Excelência sobre a importante matéria das viagens semanais de Vossa Excelência, em classe executiva, a Paris, luminosa quão merecida cidade de residência de Vossa Excelência.

Permite-se agora o cullot de voltar à augusta presença de Vossa Excelência. Antes de mais, portanto (como diria o camarada Jerónimo), as mais humildes desculpas pelo atrevimento deste seu servo e amigo.



Tem o IRRITADO seguido, com a admiração e a estima que, no fundo da alma, nutre por Vossa Excelência, as vicissitudes por que tem passado a história do ingente problema que a aflige: quem paga as viagens de Vossa Excelência a Paris? Sim, Quem?

Parece que ninguém!

Anda meio mundo preocupado com o assunto, sendo o mais aflito de todos Sua Excelência o Senhor Deputado José Lelo[i], mui Ilustre Presidente do Conselho de Administração da Assembleia da República, entidade a quem, sem sombra de dúvida, caberá mandar pagar as viagens de Vossa Excelência.

Ora, como é sabido, o insigne cidadão tem várias dificuldades do tipo mental, coisa de que não terá culpa, uma vez que já nasceu assim. Daí que, por mais voltasque dê ao limitado bestunto com que foi brindado pela criação, não consegue encontrar o competente penduricalho orçamental onde caibam os 1.200 euros que custa cada viagem de Vossa Excelência.

Em que triste miserabilismo vive a Pátria do Senhor Dom João V!



Se Vossa Excelência andar por cá uns 10 meses por ano, teremos umas 45 viagens, o que, contas feitas, se cifrará nuns meros 54.000 euros, ou seja, em moeda antiga, uns míseros 10.826.028.000 réis. Em 4 anos de mandato, a coisa não passará, como é evidente, de 43.304.112.000 réis, ou, em moeda republicana, 43.304 contos mais uns pós.



Tem Vossa Excelência toda a razão quando, solene e superiormente, declara "não sei quem paga nem quanto custa". Era o que faltava, Vossa Excelência preocupar-se com problemas destes, coisa para lelos e quejandos, gente de somenos. Vossa Excelência não sabe, nem tem que saber, o valor em jogo. "Nada disso passa por mim", declarou. Mais. Vossa Excelência, como é de timbre entre os socialistas, não se preocupa com o assunto. "Escolhi uma (agência de viagens), e passei a marcar por essa: telefono e recebo os bilhetes". É assim mesmo! A altíssima dignidade de Vossa Excelência não permite, sequer, que erga o mimoso cul da poltrona para tratar de coisas menores. Como é óbvio, alguém traz o bilhete, alguém há-de pagar, Vossa Excelência não desce a problemas de lelos. Viaja, e acabou-se. Muito bem!



Teve o IRRITADO a desfaçatez, na sua anterior missiva, de suscitar a curiosidade de Vossa Excelência para o facto de haver cidadãos - ainda que, como é lógico, gente de qualidade inferior à sua - que fazem Lisboa/Paris/Lisboa por uns 150[ii] euros, no mesmo avião que Vossa Excelência utiliza, mas lá para trás, com o cul não tão à larga e sem champanhe nem refeição quente.

É certo que Vossa Excelência não tem que descer ao ponto de aceitar sugestões do IRRITADO. Não pode este, porém, deixar de, com todo o respeito, dizer que, se Vossa Excelência o fizesse, o Lelo gastaria 14,5 vezes menos do que vai acabar por gastar com as viagens de Vossa Excelência.



Tudo isto não passa, como é evidente, de fruto da mentalidade capitalista do IRRITADO, coisa incompatível com a majestática dignidade socialista de Vossa Excelência.

António Borges de Carvalho
SÁBADO, 20 DE MARÇO DE 2010

[i] Lelo - doido, vaidoso (Dicionário Universal da Língua Portuguesa, Texto Editora).

[ii] Algo me diz que Vossa Excelência, antes de subir ao altar doirado em que se encontra, viajava por 150 euros, como a plebe. Agora, já nem quer saber quanto custa, ou custava, a sandocha e o assento apertadinho. Pois faz Vossa Excelência muito bem! Socialisme oblige.