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terça-feira, 17 de julho de 2012

Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Tempo de exames no secundário,os meus netos pedem-me ajuda para estudar português.Divertimo-nos imenso,confesso.E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas,mas as ideias são todas deles.
Aqui ficam,e espero que vocês também se divirtam.E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.
Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são  um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e
> outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela,subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que
aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português,que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º
> estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo,o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico,
> classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa.
Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou : a gente vamos à rua.
Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens,ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear.
Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos.
Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no indicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).
AS ATITUDES QUE TOMAMOS
FAZEM O PAÍS QUE QUEREMOS 

Teolinda Gersão
(segundo versão que me chegou por mail)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

11/11/11 – O FIM DO ENSINO


Em tempos passou um sábio por um reino, deixando todos maravilhados com a sua sabedoria. De tal modo sábio, mas também ousado, propôs ao rei ensinar o seu burro a falar no espaço de um mês, a troco duma quantia acordada. O rei, como gostava de possuir aquilo que mais ninguém tinha, aceitou a proposta. O sábio, passado o mês, vai ao palácio real entregar o burro, uma vez que havia já cumprido o seu trabalho. No dia seguinte, o rei mandou que trouxessem o homem à sua presença, indignado por este não ter ensinado o burro a falar e reclamando o seu dinheiro de volta. Então, com uma atitude humilde, o sábio disse que não devolveria o dinheiro porque tinha, de facto, e ao contrário do que o rei afirmava, ensinado o burro a falar. “Como, se ele não fala?”, perguntou o rei, furioso. Então o sábio respondeu, seguro de si: “Isso não é problema meu. Eu ensinei, ele é que não aprendeu.” O rei era um homem sensato, apesar das suas manias, pelo que deixou o homem ir em paz.

Esta parábola antiga evidencia aquilo que é fundamental para que a aprendizagem aconteça: um lado a ensinar e outro a aprender. Quem não quiser, ou não tiver condições à partida para fazer uma determinada aprendizagem, não a fará. E nesse caso não se podem apontar culpas a quem ensina. Ora, este é o grande drama do ensino na atualidade. Os alunos não são burros, mas se a sua atitude não for a adequada face à aprendizagem, também não aprenderão, e isso não quer dizer que o professor não esteja a cumprir o seu papel. Por vezes ouve-se de alguns alunos e de alguns pais (e não só) que os professores não ensinam. Seria importante que tivessem esta parábola em mente.
Quem teima em atribuir culpas aos professores tem de olhar para esta realidade, uma vez que o comportamento dos alunos é o grande responsável pelo seu insucesso. Então pode questionar-se… A quem compete mudar este estado de coisas? E resposta é simples… É a quem permite que isto aconteça. Não são os professores que ensinam os comportamentos incorretos aos alunos, nem são eles que produziram a legislação que empecilha todo e qualquer trabalho sério no sentido de os disciplinar.
Nas situações mais complicadas manda-se para a rua. (Muitos professores não mandam por causa daquilo que está escrito neste parágrafo.) Para mandar para a rua é preciso preencher papéis. Depois os pais contestam os papéis, às vezes com mais papéis. Para fazer um conselho disciplinar é preciso que haja muitos papéis desses, de preferência acompanhados por outros papéis, acrescentados por quem instaurar o processo, se for caso disso. O conselho de turma propõe uma pena que poderá não agradar ao diretor da escola, nem aos membros do conselho pedagógico. Quer dizer, lá no fundo concordam, mas não decidem de acordo com a sua consciência com receio de que venham outros papéis: dos pais, da sua associação, da psicóloga, da direção regional ou do ministério… que façam tudo voltar atrás. Isso obrigaria a analisar de novo os antigos papéis e a apreciar os novos papéis, a equacionar anteriores receios e os novos receios. No fim, os diretores e os conselhos pedagógicos acabarão, em regra, por decidir aquilo que mais agradar aos pais, que é uma simples repreensão escrita ou o arquivar do processo. Escusado seria dizer que o professor poderá muito bem vir a ser apontado, pelo aluno e pelos pais, como o culpado por tudo isto.
Mas as questões disciplinares são muito mais complexas do que aquilo que se restringe a uma sala de aula. Nas muitas escolas onde os problemas disciplinares não têm o desfecho que deviam ter, os alunos passam de boca em ouvido a mensagem “aqui podemos fazer o que quisermos porque não nos acontece nada”. Isso inclui estragar equipamentos, agredir colegas, insultar professores e funcionários. Obviamente, assim já se percebeu que não se vai lá e que ambos perdem: os professores, porque se desgastam e desmotivam; os alunos, porque não aproveitam como poderiam as aprendizagens que os professores lhes tentam passar.
Não cumprindo o seu papel, o ensino chegou ao fim. Já não é ensino porque deixou de haver educação. O ensino não sobrevive à ausência de educação. Daqui a uns tempos não se chame ensino a “isto”, porque “isto” já não o será. Utilize-se ou invente-se outra palavra. Porque gostamos de números curiosos, podemos propor como data simbólica para o fim do ensino o dia 11/11/11, onde cada 1 existe a par com outro 1. Facílimo de recordar, por muito tempo que passe.
Paz à sua alma.
António Galrinho
Professor

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Arrumar a casa...

Têm sido pedidos a todos nós, contribuintes, um pesado esforço no sentido de regularizar a situação financeira e económica catastrófica em que ficámos atolados depois de seis anos da governação socialista de José Sócrates.
Começam agora a conhecer-se algumas das medidas que irão ajudar a esse esforço, do lado do corte da despesa inútil do Estado.
Hoje, dão-se os primeiros passos na área da Educação.
As EAE - Equipas de Apoio às Escolas acabaram.
Nunca se percebeu a sua finalidade (para além da nomeação de mais uns destacados e do controlo político, claro), nem se conhece quais os resultados da sua acção na qualidade do ensino.
Por outro lado, regressam aos lugares de origem muitas centenas de professores que ao longo de demasiados anos se atolavam nas estruturas do Ministério da Educação, tornando-o num sorvedouro de recursos financeiros sem o devido contraponto na qualidade e na satisfação das necessidades das escolas.
Dois passos significativos e moralizadores.
Outros se devem seguir, nesta como noutras áreas.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

“Profissão desgastante a nível psicológico” - Ensino - Correio da Manhã

O Presidente da ANP, João Grancho, em entrevista ao Correio da Manhã:
“Profissão desgastante a nível psicológico” - Ensino - Correio da Manhã
É importante reflectir sobre estas realidades sob pena de não compreendermos o que se passa nas escolas e os seus resultados.

sábado, 9 de abril de 2011

A VERDADE, SIMPLESMENTE...

A farsa da avaliação dos professores, por António Barreto.


A VERDADE, SIMPLESMENTE...
 
"Na impossibilidade humana de "gerir" milhares de escolas e centenas de
 milhares de professores, os esclarecidos especialistas construíram uma
 teoria "científica" e um método "objectivo" com a finalidade de medir
 desempenhos e apurar a qualidade dos profissionais. Daí os patéticos
 esquemas, gráficos e grelhas com os quais se pretende humilhar, controlar,
 medir, poupar recursos, ocupar os professores e tornar a vida de toda a
 gente num inferno."
 (...)
 "O sistema de avaliação é a dissolução da autoridade e da hierarquia, assim
 como um obstáculo ao trabalho em equipa e ao diálogo entre profissionais. É
 um programa de desumanização da escola e da profissão docente. Este sistema
 burocrático é incapaz de avaliar a qualidade das pessoas e de perceber o que
 os professores realmente fazem. É uma cortina de fumo atrás da qual se
 escondem burocratas e covardes, incapazes de criticar e elogiar cara a cara
 um profissional. Este sistema, copiado de outros países e recriado nas
 alfurjas do ministério, é mais um sinal de crise da educação."
 
António Barreto
 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Apostar na Educação

Um país é seguramente mais rico e desenvolvido quanto mais “instruída” for a sua gente.

Para isso, torna-se necessário investir na “Educação”, como meio de assegurar níveis de instrução cada vez mais elevados, mas exigentes, mais rigorosos.

Tem sido assim em todos os países do mundo, que apresentam resultados positivos.

Em Portugal, dizem as estatísticas, que cada vez se gasta mais na rubrica da educação, mas não se conseguem os resultados que se desejam.

Ora alguma coisa tem de estar mal. Ou os números ou os resultados não são fiáveis. Ou até os dois, já que o mal pode estar no percurso realizado.

Vejamos então…

Nós por cá, de facto, temos vindo a “gastar” muito com a educação. Mas fazemo-lo de forma errada. Apostamos em cimento, em papel, em máquinas. Não apostamos essencialmente nos jovens, nem nos professores…

O dinheiro que se gasta vai direitinho para as grandes negociatas das obras e dos equipamentos. Serve apenas para enriquecer os homens dos negócios, não para responder às necessidades dos alunos.

Para haver mais e melhor educação, mais e melhor ensino, é preciso apostar na juventude e nos professores.

E isso passa por mais autonomia das escolas para, em tempo útil, responder adequadamente aos problemas que surgem. Quando aparece um aluno com dificuldades, tem de haver uma resposta imediata e ajustada. De nada vale um longo e penoso processo administrativo, para que um ou dois anos mais tarde seja encontrada uma qualquer resposta para aquele caso. Nessa altura, a pretensa solução encontrada já de nada serve, muitas vezes só vem agravar o problema.

E isso passa por uma cultura de exigência e de rigor. De nada vale falar-se desses princípios se depois o percurso de vida assenta em práticas de favor, do designado “factor C(unha)” e da permissividade. Os jovens apreendem muito bem e rapidamente estas “lições de vida”.

Passa, também, pelos Professores. Pela sua formação, pela sua motivação, pelas suas condições de trabalho, pela autoridade que lhe é conferida. Ora por cá, tudo isto fica muito aquém do mínimo exigível.

Logo, se assim é, como se podem esperar bons resultados, independentemente dos gastos feitos na área da educação?

Só que para mudar este estado das coisas, a Educação não pode continuar a ser a “arma de arremesso” de lutas políticas, não pode ser o “circo” mediático que serve apenas para distrair o povo da crise, do desemprego, do aumento dos impostos, da miséria, enfim do estado a que chegámos.

É urgente e fundamental apostar na Educação, de forma séria, rigorosa e exigente.

Publicado na edição online de "O Basto" - Fevereiro

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Evolução do conhecimento: Uma abordagem pós-moderna (ou será contemporânea?...)

Em 2045, num qualquer hospital perto de si

- Então o que se passa?

- Senhor doutor, tenho aqui uma dor muito forte, do lado direito do abdómen, por baixo do umbigo. Passei a noite a vomitar.
- Que bom, não sei nada de barrigas, o senhor vai ser um doente muito interessante!
- Como assim, não sabe nada de “barrigas”?!
- Caro amigo, médicos com conhecimento estruturado, de barrigas ou de outra coisa qualquer, já não existem. Isso era antigamente, quando tinham de decorar uma data de coisas. E era logo no primeiro ano. Começavam por uma disciplina a que chamavam “Anatomia”: era um calhamaço inteiro para aprender de cor, imagine-se!
- Então mas isso não é importante?
- Não, de todo! Eles aprendiam de cor mas não percebiam nada do que estavam a ler! Só papagueavam. Sabiam falar-lhe durante horas da aorta ou da veia cava mas se calhar nunca tinham visto nenhuma! E essa quantidade estéril de informação tolhia-lhes o cérebro, por isso praticavam uma medicina muito pouco criativa.
- Então e o sr. doutor, como é que aprendeu medicina?
- Pois aí é que está, eu não aprendi. Não lhe disse já que não percebo nada de barrigas? Mas, mais importante, aprendi a aprender medicina. Ou seja, apesar de não saber nada, sei potencialmente tudo. Já viu a sua sorte em ter vindo bater-me à porta?
- Isso é o que vamos ver... Mas espero que em todo o caso tenha tido bons médicos como professores...
- Médicos a ensinar medicina?! Valha-me Deus, que ideia mais medieval! Não , meu caro amigo, os médicos foram erradicados do ensino da medicina há mais de vinte anos.
- ?!
- Não percebo o seu espanto. Então acha razoável que as aulas sejam leccionadas por médicos enfadonhos, sem competências ao nível dos processos de ensino/aprendizagem, e que se limitam a debitar umas teorias estéreis virados para o quadro? Eram muito pedantes esses professores, achavam-se o centro das atenções. E os alunos, claro, não percebiam nada. E o pior é que todos os dias se tornavam menos criativos, menos espontâneos, menos empenhados... Não, meu amigo, hoje temos um ensino moderno, as coisas já não funcionam assim! No final do século XX assistimos a enormes progressos no campo da pedagogia. Começou-se por dar formação aos professores do Ensino Básico e Secundário. Depois, progressivamente, as novas metodologias começaram a entrar nas universidades. Primeiro de mansinho, com o processo de Bolonha. Isto aconteceu no início do século. Curiosamente, o meu curso, Medicina, ainda foi o que resistiu mais tempo. Mas ninguém pára o progresso, e ainda bem: com a criação das Direcções Regionais do Ensino Superior, por volta de 2025, já ninguém podia leccionar no Superior sem uma forte preparação nas modernas correntes pedagógicas.
- Mas como funcionam?
- Para começar, temos de perceber que o conceito de professor está ultrapassado. Já não existem professores, o que existe são orientadores/facilitadores das aprendizagens. E as aprendizagens dependem do interesse dos alunos. Eu por exemplo sempre me interessei muito por pés, logo os meus orientadores facilitaram-me essa aprendizagem.
- Por pés?!
- Sim, é que gosto muito da bola, sabe? O meu power-point de fim de Mestrado é sobre a relação entre o tendão de Aquiles e a potência de remate. Ficou espectacular, fiz com recurso a uma ferramenta das novas tecnologias, um software de medicina dinâmica...
- Então mas qual é a formação desses “facilitadores das aprendizagens”?
- É muito variada... seguiram um pequeno módulo de três meses sobre medicina propriamente dita. A partir daí, estudaram pedagogia, sociologia, psicologia, administração pública... são umas pessoas muito completas.
- Não sei como é que pessoas com esse perfil “diversificado” o conseguiram avaliar...
- Avaliar?! Decididamente, o meu amigo parece ter vivido no século passado! Há muito que se sabe que a avaliação não ajuda a consolidar asaprendizagens. Muito pelo contrário, até desajuda. Quem estuda tendo em vista um exame não aprende nada. A avaliação foi inventada pelas elites por forma a poderem manter a sua supremacia. Eram uns fascistas, não queriam que os saberes caíssem à rua.
- Por falar em “saberes”, o que me parece é que o senhor doutor não sabe fazer nada...
- Não diga isso caro amigo, vai ver que vai ficar contente com o meu trabalho. Olhe que tirei nota máxima nas disciplinas de Medicina em Contexto e Comunicação da Medicina. Fazia umas redacções muito interessantes.
- Tirou nota máxima? Então não me disse que nunca foi avaliado?
- Pois, mas tivemos todos nota máxima. É natural, não é? Cada ser humano é único. Dentro da especificidade de cada um, todos somos excelentes.
- Senhor doutor, eu não o quero interromper, mas estou mesmo aflito. Será que pode então tratar-me?
- Sim, meu caro senhor, vamos a isso! Ora bem, como lhe expliquei, não sei nada de barrigas, mas daqui a nada já vou saber tudo. Mas antes, vou ter de fazer umas investigações.
- “Investigações”?!
- Sim. Investigações. Não me pergunte porquê, mas essa palavra (tal comoaprendizagens e competências) deve ser usada sempre no plural. Vou usar as investigações para construir o meu próprio conhecimento. Quer conhecimentos mais robustos e genuínos do que aqueles que são construídos pelo próprio sujeito?
- Devo-lhe dizer que começo a ficar desconfiado. Em que consistem essas investigações?
- Ora bem, vou dirigir-me aqui ao meu terminal e interrogar o maior especialista de medicina clínica que existe: a internet. Como disse, isto vai ser mesmo muito interessante.
- A internet?!
- Exactamente! Ninguém sabe mais do que a internet, isso é mais do que óbvio. Hoje tudo está à distância de um clique, não tenho de abrir aqueles livros enfadonhos a preto e branco que conservamos na secção de museologia do hospital, em sinal de aviso às gerações futuras, para que não voltem a cair no erro do culto ao conhecimento estático.
- Então vamos lá.
- Sim, desculpe. Ora bem, deixe-me escrever aqui a minha procura “dor barriga lado direito”. Enter. Pronto, a informação já jorra! Huuumm... pois... tal como suspeitava... sim... sim...
- Já sabe o que tenho?
- Sim, é um problema simples, mas espere um pouco, deixe-me fazer aquicopy-paste para colocar no seu relatório. Agora, para confirmarmos o diagnóstico tenho só de lhe tirar uma radiografia, para ver se aparece uma imagem parecida com esta aqui. Não percebo muito bem o que representa, mas se a sua for igual é porque tem a mesma coisa. A única chatice é que a máquina de raios-X está avariada. Mas não se preocupe, vou já telefonar ao engenheiro biomédico de serviço.

(Passados dez minutos entra o engenheiro)

- Então o que se passa, senhor doutor?
- Queria fazer uma radiografia a este doente, senhor engenheiro, mas a máquina está avariada...
- Que bom! Não sei nada de máquinas de raios-X! Vai ser um serviço muito interessante...

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Educação - falsas ideias

Nos últimos dias, passado que foi o "circo" das presidenciais, a Educação voltou ao centro das atenções, num novo espectáculo, um novo "circo".
Uma mega-operação de inaugurações e o discurso político governamental elegem de novo a Educação ao centro das prioridades.
Ora as questões da Educação são, por demais, complexas.
Complexas porque há muitas variáveis em jogo, muitos agentes, muitas teorias e os resultados só são visíveis muitos anos volvidos, às vezes muitas décadas passadas.
Assim sendo, urge refutar ideias que desde logo são falsas, de modo a evitar utilizá-las ou como arma de arremesso ou como factor distractivo da realidade.
Analiso duas dessas ideias:
Os problemas da Educação resolvem-se por decreto
Esta não é uma solução para os problemas da educação.
Primeiro porque qualquer Governo tem essa prerrogativa.
Depois, porque todos os Governos a usaram com maior ou menor frequência.
Finalmente, porque nos últimos anos, principalmente na governação Sócrates, a Educação tem sido varrida por legislação sucessiva, mas nem por isso se registam melhorias na Educação, bem pelo contrário.
Podemos pois concluir que não é por esta via que se resolvem os problemas da Educação.
Os problemas da Educação resolvem-se com infra-estruturas e equipamentos
Outra das soluções miraculosas é a do investimento em infra-estruturas e equipamentos.
Exactamente agora, o Governo aponta os milhões que gastou e vai a gastar com a renovação do parque escolar e com o seu reapetrechamento.
Este é um aspecto positivo, mas não é por si só determinante.
Se o fosse, já qualquer um dos governos anteriores teria resolvido o problema.
A Educação faz-se com pessoas (professores, alunos, funcionários, encarregados de educação, sociedade em geral), não com mais ou menos recursos materiais, não com melhores ou piores condições.
Senão como poderíamos afirmar que no passado havia melhor Educação do que há hoje?
Apostar, como fazem os governos de Sócrates, nos negócios das obras e dos computadores, não contribui, praticamente, em nada para a evolução positiva da Educação.
Jamais esqueço as sábias palavras de uma muito jovem aluna que quando confrontada, pela então Ministra da Educação Lurdes Rodrigues, sobre a nova escola que estava a inaugurar, lhe perguntou o que mais gostava, ela respondeu que era da Professora.
A Educação é uma questão de "humanidade", não de euros, de equipamentos, de obras. Sem isso pode-se enterrar uma fortuna que de nada vale.
Pelo que, estas duas ideias tão propaladas, tão enfatizadas por quem nos governa, só servem para desviar as atenções, só servem para virar a população contra os professores, só servem para criar mais problemas onde já há tantos e onde era suposto dar resposta às necessidades educativas dos nossos jovens.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O meu dever é falar.

[...]
Ultrapassámos os limites do tolerável e do suportável. Ontem, o estudo
acompanhado e a área-projecto eram indispensáveis e causa de sucesso.
Hoje acabaram. Ontem, exigiram-se às escolas planos de acção. Hoje
ordenam que os atirem ao lixo. Ontem Sócrates elogiou os directores.
Hoje reduz-lhe o salário e esfrangalha-lhes as equipas e os propósitos
com que se candidataram e foram eleitos. Ontem puseram dois
professores nas aulas de EVT em nome da segurança e da pedagogia
activa. Hoje dizem que tais conceitos são impróprios. Ontem
sacralizava-se a escola a tempo inteiro. Hoje assinam o óbito do
desporto escolar e exterminam as actividades extracurriculares. Ontem
criaram a Parque Escolar para banquetear clientelas e desorçamentar 3
mil milhões de euros de dívidas. Hoje deixaram as escolas sem dinheiro
para manter o luxo pacóvio das construções ou sequer pagar as rendas
aos novos senhores feudais. Ontem pagaram a formação de milhares de
professores. Hoje despedem-nos sem critério, igualmente aos milhares.
in: Crónica de Santana Castilho

Comentário
A vida das Escolas, dos Alunos, dos Professores, dos Encarregados de Educação, tem sido posta cacos com as medidas avulsas deste (e de muitos outros anteriores) Ministérios da Educação.
Já está mais do que provado que no ME se sobrepõem os interesses políticos e partidárias acima dos direitos de que são credores as comunidades educativas.
É por isso que se exige um pacto, um plano global de médio prazo para a Educação.
É por isso que se torna urgente a definição do Regime de Autonomia do Ensino não Superior.
É por isso que é fundamental a Auto-regulação da Profissão Docente.
Terão de ser estes os pilares da Educação no futuro.
Quanto mais tarde acordarmos para o cumprimento destes três objectivos, mais tarde e mais comprometida está a Educação e o Ensino dos nossos jovens.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ofensa aos Profesores


Tribunal julga Emídio Rangel por difamação de professores

O TIC de Coimbra entendeu tratar-se de «um discurso manifestamente desproporcional, lesando a honra e consideração dos assistentes». «De facto, para opinar sobre a manifestação, não podia o arguido ofender os assistentes da forma como o fez. Entende-se que, neste caso, pretendeu-se desconsiderar, humilhar e rebaixar os professores que integravam a manifestação em causa. Entende o tribunal que as expressões em causa ultrapassam os limites do direito de expressão, sendo ofensivas da honra e consideração dos assistentes», lê-se no despacho de pronúncia.
«Deve o arguido ser pronunciado por dois crimes, mas de difamação, tal como vem acusado pelos assistentes e não de injúrias, como consta da acusação do Ministério Público, uma vez que as expressões em causa não foram dirigidas directamente aos assistentes, mas a terceiros através da comunicação social. E por terem sido divulgadas desta forma e ainda pelo facto dos assistentes serem docentes, encontram-se os crimes agravados nos termos constantes das acusações», concretiza a pronúncia.


(aconselho a leitura integral da notícia)

sábado, 27 de novembro de 2010

ESCOLA DOS PROJECTOS

Depois de analisar o suplemento do Jornal Público sobre o Ranking do
Ensino Básico e Secundário, editado no dia 15 de Outubro passado,
cheguei à seguinte conclusão (sem surpresa para quem vive a escola):
Mesmo sem a inferência dos ausentes (e necessários) indicadores
compósitos, as caras da avaliação interna e externa dizem tudo, o
facilitismo que reina na escola pública e a segurança que a escola
privada tem na preparação dos seus alunos.
Muitos são os factores que contribuem para todo este fracasso da
escola pública. Hoje decidi falar da "Escola dos Projectos". Se
tivesse optado por "Escola dos Relatórios", "Escola dos Papeis",
Escola da Burocracia", "Escola do Acessório" ou "Escola da Treta"
estaria, igualmente, em consonância com a realidade.
Relativamente aos projectos dinamizados directa ou indirectamente pela
tutela, a procura realizada na página Web do próprio Ministério da
Educação veio a revelar-se extremamente fértil. Em minha opinião, a
quantidade de projectos que surgem associados à Educação é
directamente proporcional ao desnorte (ignorância) dos seus
protagonistas. Não sabendo como resolver os problemas estruturais
(incompetência), os arautos que actualmente gravitam em torno da
educação encontram nos projectos a fórmula mágica para a resolução de
todos os problemas. "Dinamiza esse projecto que é giro", dizia na
semana passada um desses sujeitos. E assim se avança, porque "é giro".
Pouco, ou mesmo nada, importa se aquilo contribui para uma melhor
preparação dos alunos.

Projecto Municipal de Educação
Projecto Educativo de Escola
Projecto Curricular de Escola
Plano Anual de Actividades
Planos Curriculares de Turma
Projecto do Desporto Escolar (Andebol de Praia, Comité Olímpico de
Portugal, Compal Air 3x3; Corta-Mato, FitnessGram, Gira Volei,
IndoorKayak, Jogos da Lusofonia, MegaSprinter, Nestum Rugby, O Bicas
na Escola, Programa Pessoa, Taça Luís Figo, Tri-Escola)
Projecto da Mediação de Conflitos
Projecto da Educação para a Saúde
Projecto da Protecção Civil
Plano Nacional de Leitura
Plano de Acção para a Matemática
Plano Tecnológico de Educação
Projecto TurmaVirtual
Programa Criativos
Concurso Viagem ao Futuro com as Células Estaminais
Passatempo Desafio Verde nas Escolas
Programa Mundial das Escolas Inovadoras
Concurso a Europa Sou Eu
Iniciativa 1001 Músicos
Projecto Juventude Saber com Normas
Programa Green Cork na Escola
Projecto TurmaMais
Projecto Fénix
Programa Espaço NOESIS
Projecto Ciência na Escola (Fundação Ilídio Pinho)
Projecto Saber com Normas
Projecto DECOJovem
Concurso Escolar Europa no Mundo
Concurso Ciência Hoje/Ciência Viva
Programa Educativo do Museu Nacional de Arqueologia
Projecto eTwinning
Projecto MUS-E
Concurso Limpar Portugal
Iniciativa e.Skills Portugal
Concurso Jovens Cientistas e Investigadores
Concurso o Meu Mapa
Projecto Sons da Escola
Concurso Grande Será o Nosso Futuro
Projecto Europeu da Internet Segura
Os Neurocientistas Vão à Escola
Projecto a Europa dos Resultados
Projecto Educação para a Cidadania Democrática e para os Direitos Humanos
Concurso Criatividade Grande C
Programa Mais Sucesso Escolar
Projecto Atua Por Uma Cidadania Global
Projecto Europa das Descobertas e das Inovações Científicas
Projecto SEF vai à Escola
Concurso Rali Escolar
Projecto Laboratório Oceano - A Escola e a Ciência dos Oceanos
Concurso a Europa Mora Aqui
Olimpíadas da Energia e das Alterações Climáticas
Projecto e-learning
Projecto n&n's (nanociências e nanotecnologias)
Projecto Já Sei Ler
Concurso Faz Portugal Melhor
Programa Descobrir
Concurso Twist - a tua energia faz a diferença
Projecto Ciências na Escola 2Cn=e (FCT da UNL)
Programa República nas Escolas
Projecto SeguraNet
Projecto Escola-Electrão
Projecto Portugal Tecnológico
Iniciativa Inside - Arte e Ciência
Concurso Rock in Rio Escola Solar
Concurso As Línguas Abrem Caminhos
Projecto Novas Oportunidades a Ler +
Concurso eLearning Awards
Projecto Portal Planeta Vida
Projecto e-Bug em Portugal
Projecto Ler+, Agir contra a Gripe
Concurso Innovating Minds
Projecto Escola Móvel
Projecto Passaporte Cultural
Projecto ComCiência na Escola - Encontros e Desafios
Projecto Pedagógico recorrendo ao portátil Magalhães
Concurso Região com Futuro
Projecto Juventude (IPQ)
Projecto Escola. Futebol. Cidadania.
Projecto Mundo das Profissões
Concurso Nacional para Jovens Cientistas e Investigadores
Projecto Casa das Ciências (Gulbenkian)
Concurso Escolar A Minha Escola Adopta: um museu, um palácio...
Projecto Cinemateca Júnior
Projecto Ser um dia para um dia ser
Projecto Investigação sobre Factores de Sucesso Escolar
Projecto As Lições de Bach
Programa Aprendizagem ao Longo da Vida
Projecto The Pizza Business Across Europe
Projecto Biblioteca de Livros Digitais
Concurso A minha escola e a prevenção da infecção VIH/sida
Projecto Comunicação e Sensibilização para o Mar
Projecto Científico MHADIE
Projecto Incentivo à Leitura
Concurso de superTmatik Cálculo Mental
Projecto Eleonore Digital - Software Livre
Projecto Prosepe - Clube da Floresta
Projecto Escolas-Piloto de Alemão
Projecto Ler+ dá Saúde
Projecto Parlamento Europeu da Ciência
Concurso TNT Tou na Net
Concurso A minha escola contra a discriminação
Iniciativa Ler+ em vários sotaques
Projecto DADUS
Projecto Leitura em Vai e Vem
Projecto Fazer TV
Projecto Escola na Natureza
Concurso Dia da Internet Segura
Projecto Portal SKOOOL
Concurso A União Europeia e a não discriminação
Projecto Visão Verde
Concurso Nacional de Jornais Escolares
Projecto pela Inclusão Social
Iniciativa Regresso à Escola
Concurso Cidades Criativas
Projecto Nacional de Educação para o Empreendedorismo
Projecto Linha Alerta
Projecto Internacional contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Droga
Projecto Comenius Educação Inclusiva
Projecto Onde Te Leva a Imaginação

Onde fica o espaço para o desenvolvimento dos saberes relativos às
áreas curriculares disciplinares?
Acreditamos, ou não, no ensino por disciplina?

Quanto mais transdisciplinar é uma formação, mais vaga e fluida se
torna a sua aplicação
(D, p3, Parecer n.º 2/2009 do CNE)

Eu acredito.

(Desconheço o autor, mas tem razão.)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Governo aprova criação do crime de violência escolar - TSF

Governo aprova criação do crime de violência escolar - TSF

Enfim, passados vários anos desde que este tema foi introduzido na agenda das escolas e do Ministério da Educação, pela Associação Nacional de Professores, a partir das suas linhas SOS Professor, Alunos e Famílias - Bullying, Convivência nas Escolas e Bulialuno, eis que finalmente o Governo aprova a criação de crime de violência escolar.
Para quem ouviu dizer durante anos que os casos de violência nas escolas eram meras excepções sem significado, para quem durante estes anos fez centenas de horas de formação nesta área, para quem durante este período foi atacado, este é um bom motivo para sentir que valeu a pena abraçar esta causa, em prol dos alunos, das famílias, das escolas, do ensino e da educação.
Ainda bem!

Para ter uma noção mais exacta do que foi este percurso, podem consultar o arquivo da ANP sobre a matéria em http://www.anprofessores.pt/portal/PT/582/PAGID/1/default.aspx e

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Formação de Professores

Quase metade dos cursos de formação de professores com média de 11 valores
Quem pode foge da carreira docente; os que não que não conseguem melhor escolhem os cursos menos exigentes, avisam os especialistas em educação
Um bom professor faz toda a diferença em qualquer escola do mundo. Só por isso faz sentido que apenas os melhores candidatos sejam admitidos no ensino. Não é o que aconteceu este ano em Portugal. Os resultados da primeira fase de acesso ao ensino superior mostram que um em cada três cursos de formação de docentes teve uma nota mínima de acesso a rondar os 10 valores. Em quase metade das licenciaturas de Educação Básica (45%), o último classificado obteve uma média de 11 valores.

Dos 20 cursos de educação básica oferecidos nos politécnicos e universidades do país, só três cursos atingem uma média superior a 12 valores e em apenas 15% das licenciaturas (três cursos), a nota mínima é superior a 14 valores. "São maus resultados, mas não surpreendem", diz Manuel Santana Castilho, professor da Escola Superior de Educação de Santarém. Estamos perante uma carreira com as mais "elevadas" cargas horárias da União Europeia e os salários médios mais baixos da OCDE.

Qual é portanto o candidato que procura uma profissão que oferece menos que muitas outras? A resposta é óbvia: "Os que não conseguem melhor vão para os cursos menos exigentes", defende o analista educacional. E, quem pode, foge das escolas que "nos últimos cinco anos" se tornaram nos lugares menos apelativos para os estudantes que se candidatam ao ensino superior.

Os resultados deste ano são preocupantes e podem ser ainda mais a curto ou médio prazo, avisa o dirigente da Associação Nacional de Professores, João Grancho: "Cada vez mais a profissão de docente tenderá a não conseguir atrair os melhores." A exposição negativa a que os professores estão sujeitos, a instabilidade nas escolas, a precariedade, o desemprego ou o pouco reconhecimento social são os motivos para afastar os alunos com as melhores médias, defende o presidente da ANP. Não é por acaso que a União Europeia recomenda a todos os países membros para adoptarem políticas que tornem mais atractiva esta profissão: "A qualidade de um professor tem um grande impacto no insucesso e abandono escolar", relembra João Grancho.

Selecção rigorosa. Ter uma classificação elevada não é porém garantia para formar um bom professor, alertam os especialistas em educação. E é por isso que os cursos devem estar sujeitos a uma selecção rigorosa. Não basta avaliar os conhecimentos que os candidatos adquiriram no ensino básico e secundário, adverte Luís Picado presidente do Instituto Superior de Ciências Educativas: "Há outras competências que deverão ser exigidas, como por exemplo as aptidões interpessoais, emocionais e motivacionais."

Razão para o especialista em Psicologia da Educação sublinhar também o papel das escolas de ensino superior: "Cabe às universidades seleccionar e, também, identificar durante o processo formativo aqueles que não demonstram as competências necessárias. Um bom professor ensina o que sabe mas também ensina a pessoa que é." Não havendo selecção, formação e avaliação adequadas, é "toda a credibilidade e futuro da profissão, bem como a qualidade da educação, que ficam comprometidas", explica o presidente da Associação Nacional de Professores. Repensar as condições de admissão é por isso urgente se quisermos sair dos "últimos lugares da Europa", remata Santana Castilho.

por Kátia Catulo , jornal i, publicado em 22 de Outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dia Mundial do Professor

Hoje, 5 de Outubro, comemorou-se em Portugal os cem anos da instauração da República.
Uma data significativa pelos valores que lhe eram essenciais: o poder democrático, a liberdade, o desenvolvimento do ensino e da cultura, de entre outros.
Contudo, a I República pouco durou, já que dos ideais rapidamente se passou à mesquinhez dos interesses e ao radicalismo de posições.
Seguiu-se a ditadura, pautada pelo ataque ao ensino e à cultura.
Hoje, volvidos cem anos, passamos também por um novo ataque às liberdades, ao ensino e à cultura.
Não sei se vamos ou não a caminho de mais um período de ditadura, mas sei que não é este o caminho que deveríamos seguir.
Comemora-se, igualmente hoje, o Dia Mundial do Professor.
Uma data que ficou ofuscada pelas comemorações do centenário republicano em Portugal, mas que teve o indelével registo da UNESCO, como é habitual.
É que não há liberdade, democracia, solidariedade, sem educação e sem cultura.
Cabe às Escolas, e nestas aos Professores, o papel fundamental de criar as condições essenciais ao ensino, à educação e à cultura.
Mas em Portugal, pelo contrário, pretende-se fazer isso sem os professores e muitas vezes, até, contra os professores.
No Dia Mundial do Professor temos de elevar a nossa voz, para defender a nossa profissão, mas sobretudo para defender os princípios republicanos e almejar os objectivos a que se propuseram em 1910 os instauradores do novo regime.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O valor das qualificações


Numa sociedade em crise, diz-se que as qualificações de cada um são um elemento de salvaguarda e de vantagem competitiva.
Por isso, há de qualificar milhares ou milhões de cidadãos através das Novas Oportunidades.
Nem vale a pena falar deste famigerado projecto.
Por outro lado, todas as organizações e sectores profissionais apostam na requalificação dos seus quadros, na avaliação de desempenho, como elementos essenciais ao desenvolvimento e progresso individual e do grupo em que se inserem.
O Ministério da Educação, de há muitos anos a esta parte, embarcou igualmente neste processo.
Abanou com a cenoura de uma progressão mais vantajosa na carreira profissional dos professores, pô-los a fazer sucessivas formações contínuas, cursos de especialização, complementos de formação, mestrados, doutoramentos.
Para quê?
Para continuarem nas mesmas escolas, com os mesmos alunos, com as mesmas faltas de recursos, com a mesma organização funcional, com uma cada vez maior centralidade do ministério, com maior dependência e controlo.
Muitos professores embarcaram neste processo imbuídos de bons objectivos, de boas ideias, diria mesmo de boa-fé.
Outros, talvez os mais sensatos, fizeram-no só e apenas para ganhar mais uns cobres no fim do mês.
Qual o resultado?
Para as escolas e para os alunos não se vislumbram melhoras directamente relacionáveis.
Mas para os professores, fora o maior ou menor aumento salarial obtido, perderam a sua dignidade, sujeitaram-se a ser apelidados de ignorantes e incapazes, necessitados permanentemente de formação. Enfim, uns "burros".
É um pouco assim que muitos daqueles que investiram tempo, esforço e até muito dinheiro na sua formação, quanta dela muito especializada, hoje se sentem.
O que dirá, por exemplo, um professor que neste processo até entendeu obter o mestrado ou o doutoramento em novas tecnologias de informação e comunicação e que no final é colocado, lá na escola, a transportar computadores, cabos e a reparar software, de sala em sala?
Terá sido para isto que se promoveu tanta formação?
Será que a qualificação dos recursos humanos serve apenas para desqualificar a função docente?


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Associação Nacional de Professores entregou donativo à escola da Serra de Água


Cheque prenda de 500 euros para adquirir material didáctico

A Escola Básica do 1º Ciclo com Pré Escolar da Serra de Água recebeu esta manhã um donativo oferecido pela Associação Nacional de Professores. Um cheque prenda no valor de 500 euros para adquirir material didáctico para as 82 crianças que frequentam este estabelecimento de ensino, situado numa das localidades mais afectadas pelo temporal, daí a escolha.

Outros donativos serão também entregues a escolas do Funchal e de Santa Cruz.

Fonte: Notícia de ontem no Diário de Notícias - Madeira, Orlando Drumond

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Associação Nacional de Professores quer mais "valorização" da classe


Associação inaugurou ontem a sede na região e abordou a criação de uma ordem

Sede da ANP, nos Barreiros, foi inaugurada ontem. FOTO JOANA SOUSA/ASPRESS

Na inauguração da sede da secção regional da Madeira da Associação Nacional dos Professores (ANP), nos Barreiros, o presidente da comissão instaladora regional, Luís Alves, apontou que pretendem "dar mais visibilidade ao trabalho da classe docente da Região e contribuir para uma melhoria do desempenho docente nas escolas".

O presidente da direcção nacional da ANP, João Henrique Grancho, focou que "ao longo de muitos anos, a profissão docente tem vindo a ser descuidada", no sentido de que não tem sido dada a "devida atenção". O responsável falou ainda do propósito da auto-regulação da profissão, dando como exemplo a criação de uma ordem dos professores para defesa dos valores da classe.

O presidente da CMF, Miguel Albuquerque, referiu que "o desígnio nacional e democrático" passa pela qualificação dos portugueses e enalteceu o papel dos docentes na sociedade.

Registo da inauguração da sede da Associação Nacional de Professores na Região Autónoma da Madeira, no Diário de Notícias - Madeira

terça-feira, 14 de setembro de 2010

DE EDUCADORES PARA EDUCADORES


A escola está em revolução! Os pequenos projectos que aqui e ali foram surgindo tiveram um
efeito multiplicador. Gradualmente uma turma contagiou a outra e toda a comunidade educativa
ganhou o hábito de questionar a realidade envolvente, reflectir criticamente sobre os problemas
locais e globais, criar formas de intervenção (pessoal e colectiva) que contribuíssem para o bem
comum. As crianças e jovens contagiaram a comunidade local, habituados que estavam a tomar
decisões responsáveis e a assumir um papel comprometido com os valores da solidariedade e da
justiça social na turma, na escola, no bairro,...
O cenário antes descrito seria o desejável, mas infelizmente nas nossas escolas o tom usado não
é o rosa. Bem pelo contrário, às vezes, o vermelho é tão intenso... Afinal, as nossas escolas
fazem parte da sociedade em que vivemos, têm os mesmos problemas e virtudes.
Estão inseridas numa cultura de facilitismos que se reflecte no dia-a-dia. Alguns dos nossos
alunos e alunas quando se deparam com alguma dificuldade tentam desistir da aprendizagem...
Mas, aprender não é tarefa fácil! Aprender não tem de ser fácil. Faz dor de cabeça. É demorado.
Mas repleto de aventuras.
Estão inseridas em sociedades que vivem alicerçadas num pensamento tecnicista. A escola vai
“domesticando” cada criança e jovem tendo em conta as necessidades políticas, económicas e
sociais. Um saber “empacotado” de respostas em “bandejas”. Mas... aprender não é assim!
Aprender é despertar uma reflexão crítica baseada, simultaneamente, em factos concretos do
mundo actual e nas suas próprias vivências. É partir daqui para projectarmos os nossos alunos e
alunas mais além: analisar e questionar situações locais e globais, evidenciar as interligações e a
interdependência presente entre todas as pessoas, regiões e países, descobrir as nossas próprias
verdades. Um constante movimento de construção, desconstrução e reconstrução.
Estão inseridas numa cultura em que os outros - seja o Estado, sejam os nosso superiores
hierárquicos, sejam os nossos familiares e amigos,... - têm responsabilidades das quais, por este
ou aquele motivo, fugimos através da arte da desculpa e da sua fundamentação. Mas, neste
planeta, nada do que deixamos de fazer ou do que fazemos é alheio ao destino das restantes
pessoas. E para nós, enquanto educadores e educadoras, isso é muito mais verdade! Não somos
seres neutros, somos seres éticos e políticos: fazemos opções e tomamos decisões
comprometidas com os nossos valores, ideias e ideais e que influenciam as crianças e jovens com
quem trabalhamos, os nossos colegas, as nossas direcções...
Por exemplo, a quem cabe a tarefa de seleccionar as estratégias que melhor se adequam às
características dos nossos alunos e alunas e que melhor servem os objectivos a que nos
propomos?! E esta opção tem um papel importantíssimo na construção de aprendizagens
significativas...
Se optarmos por um ensino pela descoberta podemos dar oportunidade aos alunos e alunas de
realizarem experiências e trabalhos de pesquisa de forma autónoma. Sob a nossa coordenação,
podem explorar as suas próprias questões, promover o seu espírito de observação, de iniciativa,
de capacidade crítica, de curiosidade científica e de partilha e colaboração.
Se quiseremos abrir a escola à comunidade e ao mundo, a aprendizagem resulta em infinitas
aventuras pedagógicas. Optamos por uma forma de combater a insularização dos saberes,
mostrando que o currículo não é apenas o plano ou “currículo prescrito” mas também o “currículo
vivido”. Por uma forma de povoar o descampado dos saberes importantes com novos sentidos. É
possível experimentar aí os sentimentos de sucesso e de fracasso, as sensações de insegurança
e incompletude, tal como na vida – uma verdadeira “pedagogia da incerteza”, colectivamente
assumida e saboreada.
Em ambos os casos temos uma convicção: acreditamos que cada um pode ser o construtor do
seu saber, do seu processo de aprendizagem. Deixamos de querer “presentear” os alunos e
alunas com sumulas mais ou menos complexas e iguais todos os anos, deixamos de nos revelar
avessos às mudanças para passar a acompanhar, a desafiar, a apoiar e avaliar todo o processo
educativo.
E, claro, que um trabalho finalizado acarreta, inevitavelmente, milhares de outros por começar. Ao
reflectirmos sobre um processo remexemos em memórias acabadas de chegar, esgravatamos no
terreiro das concretizações, levantamos insatisfações – ideias por realizar ou, definitivamente,
abandonadas - ... tudo já em estado de nova construção. E com toda esta mexida sente-se uma

agradável aragem que acorda e recarrega as nossas mais fortes determinações. A nossa
criatividade. A nossa energia.
Bem, com tudo isto e com todo o percurso efectuado por nós (incluindo o desalento que sentimos
em determinadas fases) queremos dizer-vos que fica a necessidade de agir, de construir um
mundo em que deixamos de ser espectadores e passamos a ser actores, reformulando, tantas
vezes quantas necessárias, o nosso caminho enquanto educadores e educadoras.
Porque, afinal, é impossível não estar co(i)mplicado nos acontecimentos do nosso mundo.
Porque, afinal, hoje os nossos desafios são mais complexos, mais ambiciosos, mas educar
continua a ser uma tarefa muito enriquecedora e gratificante. Porque, afinal, para nós as situações
imprevistas que se nos deparam são desafios e não condenações. Porque, afinal, temos de lutar
pelo nosso valor social, pela nossa importância. Porque, afinal, somos os que ainda podem fazer
sonhar. Porque as nossas escolas podem não ser fáceis ou as melhores no ranking escolar, mas
certamente são lugares especiais porque nelas estamos nós!

Ana Lagoa, Fátima Capelo, Fátima Roldão, Graça Delgadinho, Graça Dias, Luísa Costa,
Maria Reina Pimpão, Patrícia Santos (org.), Ricardo Cipriano, Rosa Fernandes
Julho de 2010
Professores/as participantes na Oficina de Formação “Educação para a Cidadania Global na
escola”, dinamizada pelo CIDAC - Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral, em
parceria com o Centro de Formação Professor Orlando Ribeiro - Associação de Professores de
Geografia. Para informações sobre esta Oficina contactar o CIDAC através do e-mail ed-
ps@cidac.pt.
O presente artigo foi escrito a várias mãos pois integra citações de textos elaborados pela
educadoras e educador acima citados.